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Adolescente de 13 anos que teve morte induzida por meio do Discord deixou carta: ‘Ninguém viu ainda’

Menina foi submetida a tortura ao vivo por grupo no Discord antes de morrer

*Atenção: conteúdo sensível. Alerta para discussões sobre depressão, automutilação ou suicídio.

A adolescente de 13 anos encontrada morta, no dia 22 de julho após ser induzida ao suicídio por um grupo de jovens por meio da plataforma Discord, deixou uma carta, cujo teor ainda não foi revelado. O crime foi antecedido por tortura e ocorreu durante uma transmissão ao vivo no aplicativo.

Ao Jornal Midiamax, um parente, que não será identificado, contou à reportagem a existência da carta deixada pela menina; no entanto, o conteúdo escrito não foi revelado, uma vez que não teria sido lida pelos familiares, tornando-se objeto de investigação pela PCMS (Polícia Civil de Mato Grosso do Sul).

“Ela deixou até uma carta. Ninguém viu ainda. Está na mão da polícia; nem a família viu”, relata. O familiar revela o mistério da carta deixada, mas também relembra a cena chocante que presenciou ao ver a menina sem vida na varanda da casa, na cidade no sul de Mato Grosso do Sul, com mais de 53 mil habitantes.

“Quando eu passei de frente, ela estava pendurada. Cheguei e falei para minha avó; ela não acreditou e depois descobriu. Todo mundo ficou em choque”, contou.

O Discord é um aplicativo gratuito de comunicação que permite a comunicação por meio de mensagens de texto, voz e vídeo. No entanto, a rede, que virou “febre” entre os adolescentes, passou a ser utilizada para estimular crimes como indução à automutilação e até a incitação ao suicídio.

Para a reportagem, o parente da vítima sul-mato-grossense revelou que o suicídio foi antecedido por requisitos de dor e crueldade. Isso porque, dentro da própria plataforma, quanto mais violento é o grupo, mais faz “fama”. E assim, com a adolescente, a violência foi escancarada: ela chegou a se automutilar e arrancar um dos próprios dedos.

“Ela fez muita coisa [no dia do fato]. Ela se cortou, machucou todo o pé, cortou o pescoço e chegou a arrancar um dedo”, relatou a prima.

Discord. (Foto: Juca Varella/Agência Brasil)

Na próxima semana, completa-se um mês do falecimento da jovem que morava na Espanha com o pai. Entretanto, o que fica agora é o sentimento de saudade e as boas lembranças vividas ao lado da família. Mesmo que por um curto período de tempo.

“Ela era tranquila, era mais na dela. Ninguém nem tinha aproximação, porque ela ficava só dentro de casa, no computador e no celular. Fica uma dor… Era uma criança!”, finalizou.

Vizinhos ao lado

Moradores novos em um pequeno bairro de Naviraí, a 359 km de Campo Grande, a família era pouco conhecida pela vizinhança. Entretanto, uma vizinha, que não será identificada, lembra ter visto a adolescente brincando com o irmão.

“Um dia antes, ela estava sentadinha debaixo daquela árvore ali, brincando com o irmãozinho dela”, contou a vizinha.

Local onde a adolescente foi vista pela última vez pela vizinha. (Foto: Pietra Dorneles, Midiamax)

A morte pegou todos de surpresa. “Meu Deus, foi um baque. A vida toda pela frente e aconteceu uma coisa dessas. Eu fiquei sem chão aqui de casa, falei: ‘Meu Deus do céu, tem misericórdia!’. Não gosto nem de me lembrar”, pontuou.

Outra moradora da mesma rua onde a mãe da adolescente morava também sentiu a partida precoce. “Quando uma mãe perde um filho, todas perdem. Então, é triste, é ruim, e a gente ficou bem magoada. É uma tristeza. Uma mãe nunca esquece, não supera, porque é um pedaço dela que se foi. Uma dor que ninguém consegue esquecer”, finalizou.

Aliciamento, vulnerabilidade e rituais de violência

Em coletiva de imprensa, a Polícia Civil de Mato Grosso do Sul revelou que o grupo — composto majoritariamente por adolescentes — operava com foco em atrair meninas em situação de vulnerabilidade emocional ou social para submetê-las a dinâmicas de dominação, extremismo e mutilação.

Para ganhar “respeito” na hierarquia do grupo e fama nas redes, as vítimas eram submetidas a rituais de violência e auto violação. Assim, entre as tarefas dadas, elas precisavam se automutilar e até deixar os nomes dos ‘donos’ no próprio corpo.

As apurações apontam que o grupo utilizava plataformas como Discord e Telegram para disseminar ideologia neonazista, misoginia, discurso de ódio e exigências de maus-tratos a animais e abusos mentais.

Itens nazistas foram encontrados durante operação. (Polícia Civil)

No dia 22 de julho, a adolescente, de 13 anos, foi encontrada morta na varanda da casa onde morava, em Naviraí. Ela foi encontrada pela mãe e pelo padrasto, por volta das 6h.

Na época, foi divulgado que a vítima estaria participando de um grupo na plataforma Discord. Ela teria sido induzida a tirar a vida de quatro gatos; no entanto, não teria conseguido. O servidor teria sido derrubado após denúncias do Carpe Diem — grupo de hackers éticos que ajuda a polícia.

Tempos depois, o mesmo grupo criminoso, já em outra chamada, fez com que a adolescente tirasse a própria vida. Inclusive, os integrantes teriam comemorado a morte entre eles.

Prints de supostas mensagens atribuídas ao grupo chegaram a circular nas redes sociais. “Tropinha, isso é oq acontece quando demora tanto pra fazer a p**** de um lulz, o próximo será possivelmente um homicídio…”, descreve uma das mensagens.

Plataforma é investigada

Nesta semana, a plataforma Discord admitiu falha no sistema de proteção, que demorou cerca de duas horas para derrubar a live que mostrava a morte da adolescente.

Entre o início da transmissão, à 1h20, e a morte da jovem, foram quase duas horas em que a plataforma poderia tê-la tirado do ar. Segundo o Discord, o primeiro aviso de risco foi às 2h50 e a retirada foi às 3h15.

A ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados) determinou que as transmissões ao vivo fossem suspensas pelo Discord. O aplicativo respondeu que classificou a decisão como “prematura”.

Proposta da AGU

AGU (Advocacia-Geral da União) declarou que recebeu proposta com as medidas do Discord, nesta terça-feira (11). O relatório apontou falhas na proteção de menores de idade nos mecanismos da plataforma.

Os representantes da empresa entregaram o documento após reuniões com o MJSP (Ministério da Justiça e Segurança Pública) e a ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados). A Secretaria Nacional de Direitos Digitais do Ministério da Justiça realizou um relatório que aponta falhas nos mecanismos de verificação de idade e de proteção de crianças e adolescentes.

A AGU havia pedido a adoção de medidas efetivas pelo Discord. Entre elas, mecanismos de verificação etária, prevenção de riscos e proteção de menores. A proposta será analisada junto de outros órgãos federais, o que poderá resultar em um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta).

Onde buscar ajuda?

Em Mato Grosso do Sul, o GAV (Grupo Amor Vida) oferece apoio emocional imediato para pessoas que estão precisando de ajuda por não se sentirem bem e por estarem em crise. O GAV é uma associação civil sem fins lucrativos, fundada no ano de 2001 e com sede em Campo Grande.

A pessoa que está mal e com pensamentos suicidas pode entrar em contato pelo telefone do GAV: 0800 750 5554.

Do outro lado da linha, voluntários estarão em regime de plantão, das 7h às 23h, inclusive sábados, domingos e feriados, para oferecer o apoio.

O GAV garante o anonimato, o sigilo e a não discriminação das pessoas que ligam pedindo ajuda, inclusive a identificação de chamadas está desativada nas operadoras de telefonia.

No nível nacional, outro grupo que oferece apoio é o CVV (Centro de Valorização da Vida), que realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar.

Midiamax

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