“Você está muito gorda; não pode ser a única gorda da família.” Reflexo de uma sociedade que supervaloriza corpos magros e estigmatiza pessoas acima do peso, a frase, por si só, já seria cruel. O contexto, porém, torna a situação ainda mais chocante.
Essa foi a justificativa apresentada por uma avó, de 68 anos, para aplicar tirzepatida, a chamada “caneta emagrecedora”, em uma criança de 11 anos sem diagnóstico médico, prescrição ou qualquer indicação para tal uso.
O caso, que gerou indignação, ocorreu em maio, em uma cidade do interior de Mato Grosso do Sul. De tão absurdo, chegou à Polícia Civil. A criança obteve medida protetiva contra a avó e o tio, de 38 anos. Segundo as investigações, as doses do medicamento eram contrabandeadas do Paraguai.
Mas as consequências desse episódio vão além dos riscos físicos provocados pelo uso irregular do remédio. Especialistas alertam que situações como essa reforçam o estigma e a pressão estética enfrentados por crianças e adolescentes com obesidade.
Diferentemente de outras doenças, a obesidade muitas vezes não é vista como uma condição de saúde, mas como resultado de falhas individuais, o que alimenta preconceitos e discriminação. Desde cedo, crianças e adolescentes com excesso de peso precisam lidar com a rejeição, a exclusão social e o bullying, que comprometem o desenvolvimento emocional.
Dados do Atlas Global da Obesidade e da OMS (Organização Mundial da Saúde) apontam que, até 2030, o Brasil pode se tornar o 5º país no mundo com mais crianças e adolescentes obesos. O estudo também relata que, se não houver ações reais, as chances de mudar essa situação são de apenas 2%.
Endocrinologista pediátrica e coordenadora da pós-graduação de Endocrinologia Pediátrica da AFEA, Luciana Corrêa, destaca que a obesidade infantil deve ser compreendida como uma doença crônica, progressiva e multifatorial, e não apenas como consequência de escolhas individuais relacionadas à alimentação e à prática de exercícios físicos.
Segundo a especialista, fatores biológicos desempenham papel fundamental no desenvolvimento da doença. Ela explica que o hipotálamo, região do cérebro responsável por regular a fome, a saciedade e o gasto energético, pode apresentar alterações que levam a um aumento da fome e à redução da sensação de saciedade.
“Essa desregulação cerebral faz com que muitas vezes o paciente sinta mais fome do que o habitual e tenha dificuldade para se sentir satisfeito após as refeições”, afirma.
Luciana também destaca a influência de fatores genéticos e da microbiota intestinal. De acordo com ela, alterações no conjunto de bactérias que habitam o intestino podem favorecer uma maior absorção de nutrientes e desencadear processos inflamatórios, contribuindo para o ganho de peso e para a manutenção da obesidade.
Solução para a obesidade infantil?
Com o avanço da ciência, surgem novas alternativas. Em abril, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorizou o uso da tirzepatida no tratamento da diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes de 10 a 17 anos. A decisão reacendeu um debate que vai além da eficácia do medicamento: até que ponto as chamadas “canetas emagrecedoras” estão sendo vistas como uma resposta simples para um problema complexo?
Ao contrário da diabetes tipo 1, uma doença autoimune, o tipo 2 está frequentemente associado ao excesso de peso, à resistência à insulina e a fatores ligados ao estilo de vida, como alimentação inadequada e sedentarismo. Nesse contexto, a tirzepatida, comercializada no Brasil como Mounjaro, recebeu autorização para pacientes mais jovens após análise técnica da agência reguladora.
A ampliação da faixa etária, no entanto, não significa que o medicamento represente uma solução para a obesidade infantil, como no caso ocorrido em MS.
Para Diana Sá, médica e também professora do curso de pós-graduação em Endocrinologia da Afya Educação, existe o risco de interpretação equivocada por famílias que enfrentam a angústia de ver crianças e adolescentes ganhando peso.
“A tirzepatida recebeu aprovação para o tratamento de diabetes tipo 2, e não para obesidade. Quando falamos de um corpo em desenvolvimento, os cuidados são redobrados”, afirma.
Medicamentos podem ser indicados em alguns casos
No entanto, quando mudanças na alimentação e a prática de atividades físicas não são suficientes para controlar a obesidade, o tratamento medicamentoso vira uma alternativa. Luciana Corrêa explica que atualmente existem opções seguras e eficazes para crianças e adolescentes, desde que utilizadas com indicação médica e acompanhamento especializado.
Entre os medicamentos aprovados para o tratamento da obesidade a partir dos 12 anos, estão a semaglutida (Ozempic) e a liraglutida. Segundo a especialista, esses recursos podem ser importantes aliados em casos específicos, mas não substituem as mudanças no estilo de vida.

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“Precisamos entender a complexidade da obesidade, que vai muito além de simplesmente comer certo e se exercitar mais. Existem situações em que será necessário um tratamento medicamentoso”, afirma a endocrinologista.
Uso exige acompanhamento especializado
Mesmo com prescrição, a endocrinologista alerta que esses medicamentos precisam de prescrição e acompanhamento de profissionais de saúde. O tratamento requer ajuste gradual das doses e monitoramento para evitar efeitos adversos, como vômitos, diarreia, desidratação, queda da pressão arterial e tonturas.
Outro risco é a redução excessiva do apetite. Embora isso possa levar à perda de peso, a criança ou o adolescente pode deixar de consumir quantidades adequadas de proteínas, vitaminas e minerais essenciais para o crescimento e o desenvolvimento.
FONTE: Midiamax



