Um ano após, Gilmar e Lilian falam do acidente trágico onde ele ficou o dia inteiro esperando por socorro, sem poder se mexer

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RELEMBRE O CASO, OCORRIDO EM 1º DE NOVEMBRO DE 2019 (matéria publicada em 7 de novembro de 2019 no Jornal Tribuna Livre)

“Bom! O meu esposo, toda vida, ele sai pra trabalhar, ele me avisa. Lilian, eu to indo, a hora que eu chegar lá, eu te retorno falando que eu cheguei bem. E quando ele sai do destino dele pra retornar pra casa ele faz a mesma coisa”, assim que Lilian Betarello Dias Bento começa a contar sobre o acidente que seu esposo Gilmar Bento Dias, sofreu na sexta-feira, 1º de novembro.

Ouça o áudio de Lilian, gravado nesta quarta-feira (4 de novembro de 2020; um ano depois do acidente):

Gilmar saiu na sexta, por volta das 7 horas da manhã, de Paranaíba com destino a uma fazenda onde iria prestar serviço. Foi conduzindo a motocicleta que havia ganhado de presente de Lilian a dois dias. Após fazer o café da manhã em casa, como sempre faz, despediu-se da esposa e saiu. “Vai com Deus e volta com Deus”, desejou carinhosamente Lilian. “Amém”, responde Gilmar, e foi, segundo ela, não com muita vontade, mas como era segunda semana de emprego, a obrigação falou mais alto.

A partir do momento em que deu o horário do esposo retornar a ligação avisando que havia chegado em seu destino, e a ligação não chegava, Lilian disse que começou a bater o desespero. A filha do casal também ligou apavorada, dizendo que queria saber o que havia acontecido com ele. “Ela nunca me ligou assim, maior foi a minha angústia. Naquele momento o que eu pensava era que tinha de procurar ele”, explicou a esposa.

A partir deste momento Lilian disse que começou a ligar para várias pessoas, inclusive para o vendedor Cido da empresa de móveis onde Gilmar estava trabalhando. Ela foi orientada de que até o distrito Alto Tamandaré, local de destino, gastaria uma hora de ida, uma de volta e mais umas duas horas para a montagem do móvel. Já era por volta de 15 horas, Cido ligou para a cliente no distrito e foi informado que o montador ainda não havia chegado. “Nesta hora, pensei em sequestro. Porque [engoliu a voz] eu tinha dado a moto novinha pra ele; às vezes foi assaltar e ele reagiu”, argumentou. “Pensei em tudo que não presta, mas não perdi a esperança”.

Neste momento, o vendedor Cido, com a filha e o genro de Lilian, saíram em busca de Gilmar. Eles foram no carro de Lilian. Ela ficou na cidade fazendo contatos, inclusive nas redes sociais. “Vocês não me voltem. Se não acharem, encontrem um lugar e me dê notícias, que a polícia vai poder agir”, disse. O tempo foi passando e nada de notícia, quando a filha ligou e disse que passou no boteco do Martelo, já depois das 15 horas. Ao mostrar a foto de Gilmar, foram informados de que ele havia passado pelo local por volta das 8 horas da manhã. “Eu expliquei onde era, ele foi e não retornou”, afirmou a mulher que os atenderam.

Com estas informações, Lilian disse para a filha que não teria havido sequestro. “Sequestrado ele não está, então ele está machucado. Em tudo quanto é mato, em tudo quanto é lugar, vocês vão parar, vocês gritam, pois se ele estiver muito machucado ele não vai conseguir movimentar”, disse com esperança, porém desesperada.

Bem para frente do boteco, ao passarem de encontro com outro veículo, tiveram que diminuir a velocidade do carro, momento em que Gilmar reconheceu o barulho do veículo da família e gritou por socorro. “Ele pensou, é minha esposa, tá me procurando, aí ele gritou ‘socorro’. Quando ele gritou socorro, minha filha gritou ‘pai, é você?’ [Uma pausa na fala de Lilian e choro]. Ele falou ‘sim’. Aí ela perguntou onde ele estava e começaram a clarear com a lanterna. Ele dava sinal com a moto, mas eles não viam porque ele estava muito lá embaixo”, explica Lilian.

Assim que conseguiram comunicar-se, a filha queria descer para retirá-lo, porém Gilmar informou que não tinha como, pois estava com a perna quebrada e com muitos ferimentos pelo corpo. Cido ficou com Gilmar e a filha com o genro voltaram para o boteco do Martelo para ligar para a cidade. Neste momento, Lilian disse que já estava junto à Polícia Militar e agradeceu pelo atendimento que recebeu. Os policiais, segundo ela, deram toda a atenção comunicando com conhecidos do Alto Tamandaré, Cassilândia e Inocência, para certificarem se poderia ter ocorrido um possível sequestro. “Os policiais estavam se preparando para sair em busca, minha filha liga dizendo que tinha encontrado, ele estava bem machucado, mas estava vivo e conversando. Eu caí de joelhos dentro da delegacia, chorei muito, agradeci muito a Deus, muito muito, e abracei cada um dos PMs, agradecendo”, emocionada Lilian relatou em entrevista ao repórter Aguimar Souza, da rádio Difusora.

Neste momento, o Corpo de Bombeiros também foi acionado e, segundo Lilian, saíram em duas viaturas com rapidez e um serviço exemplar para atender seu companheiro. Até ocorrer o resgate no local do acidente e o deslocamento até a cidade, Gilmar chegou na Santa Casa de Paranaíba por volta das 3 horas da manhã de sábado, dia 2. A esposa acompanha o marido no hospital até hoje, 7, onde continua internado, recuperando-se.

Gilmar informou que o acidente foi provocado após uma curva, onde deu de encontro com uma anta. Para não se chocar com animal, tentou desviar e acabou caindo com o veículo numa ribanceira.

Do acidente, Gilmar teve fratura de fêmur, passou por cirurgia com o ortopedista Pedro Eurico Salgueiro e teve que colocar 14 pinos; teve trinco no joelho e há suspeita de fratura no tornozelo e pé esquerdo, possivelmente, tendo de passar por nova cirurgia.

Lilian concluiu a entrevista dizendo que o atendimento da Santa Casa é de primeira qualidade, apesar de seu esposo estar na enfermaria, onde ela o acompanha. “Quando eu falo eu choro, ele não consegue falar do acidente. Se Deus quiser, logo vamos estar em casa, com a nossa vida de volta” concluiu.

Ouça o áudio de Gilmar, gravado nesta quarta-feira (4 de novembro de 2020; um ano depois do acidente)